quinta-feira, 7 de maio de 2009

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?




domingo, 3 de maio de 2009

a nostalgia apoderou-se de mim

Amámo-nos outrora, claro que amámos. Mas depois acabou, como quase todas as amizades de infância acabam um dia. Não importa quem tinha feito o quê, não se tratava de culpa nem remorso. Tratava-se de crescer. (...) Acabou e eu sinto-me subitamente imponderável, voando sobre mim mesma, tão leve e despreocupada como as nuvens. Olho para o céu através dos pinheiros, quase esperando um sinal, e com um repentino clarão prateado, o sol surge por detrás do tronco de uma árvore, a luz ressaltando dos remendos de neve e ofuscando-me por um momento. Agora chega a realidade. Andei, durante todo este tempo, desesperadamente perdida, mas agora as viagens e a espera chegaram ao fim.
( Katy Gardner - Viagem Sem Regresso )


Não vou dizer que tenho saudades tuas - habituei-me a tua ausência. Tal como tu, te habituas-te a nossa distância. Mas as minhas memórias antigas - que se encontravam já adormecidas - acordaram. Consequentemente, lembrei-me de ti. De certa forma, por causa deste livro que me ocupou a mente nestes três longos dias. Um sentimento de nostalgia apoderou-se de mim.
Acompanhaste de perto, toda a minha infância e por parte, a minha adolescência. Quando chegámos aos 15 anos, aquilo que nos mantinha unidas, afastou-nos por completo. Eu que sempre me culpei, e tu, que me culpaste também pelo nosso afastamento. E na verdade, não foi culpa de ninguém. Desde pequenas, sempre fomos diferentes. Era isso que nos completava. Era por este motivo, que éramos inseparavéis. E o fomos durante 10 anos longos anos. Tu eras tudo o que eu não era. Eu era alta e magra, sardenta de cabelos encaracolados. Tu, tinhas o cabelo curto e preto liso, e sempre foste baixinha e redonda - Lembro-me de quando disseste: Já tenho 1,55 sabem? Para ti, crescer meio centímetro sempre foi uma grande vitória. Tinhas uma personalidade forte. Não te deixavas pisar. Tinhas garra, e defendias o que era teu com unhas e dentes. Muitas vezes defendeste-me, em diversas situações. Porque eu ao contrário de ti, era sensível e ingénua. Vivia num mundo cor de rosa, e sempre tentei mostrar-me indiferente a provocações (mas era no teu ombro que eu me lamentava ), deixava que me pisassem. Achava que o melhor era ignorar, pensava que assim conseguia mostrar a minha força. Sempre fui paciente, achava que tudo um dia se pagava, de uma forma ou de outra. Tu eras impaciente, se fosse necessário davas na tromba, a quem se metesse no teu , ou no meu caminho. Mas a verdade, é que sempre foste de birras, amuavas por tudo e por nada. Talvez fosse para chamares atenção, sempre gostaste de estar no centro do mundo - mas as birras eram tantas, que já ninguém dava importância. Foste sempre explosiva, a rapariga alegre do nosso bairro. E eu, a querida e adorada por todos. Quando estávamos juntas, conseguíamos encontrar um equilíbrio. Estávamos sempre em harmonia. Em dez anos chateámos-nos uma única vez. Com o tempo, mudaram-se os gostos, mudaram-se os interesses, mudaram-se as vidas. E acabámos por seguir caminhos diferentes. Não sei se evoluímos, mas a verdade é que transformámo-nos. Crescemos? Eu já não sou quem conheceste em tempos, e tu já não és quem eu conheci à doze anos atrás. Já não vivemos no Vale das Rosas, no bairro na periferia, onde pensávamos que tudo era perfeito. Um mundo feliz, e ingénuo longe de tudo aquilo que nos poderia fazer crescer. Quando abandonei esse lugar, enterrei uma parte de mim. Custou-me cortar as minhas raízes, afinal de conta, tinha crescido aí. Demorei um ano a habituar-me à ideia. Mas hoje, penso de uma maneira diferente sabes? Se continuasse a viver aí, talvez ainda fossemos amigas, mas nunca me tinha tornado a pessoa que sou hoje - ia continuar com a minha mente condicionada. Aprendi muito a observar outras realidades, também aprendi com as minhas vitórias, com os-porta-na-cara e principalmente com os meus erros, e algumas lágrimas. E isto que faz parte da vida. É assim que me sinto viva. E por mais que me tenha custado o trajecto até aqui, eu gosto de quem sou hoje. E de certa forma, devo-to a ti, também.
Não fomos culpadas de nada. Crescer, e escolher caminhos faz parte da vida. Quero que saibas, que guardo todos os nossos momentos, e guardo-te a ti também. No coração.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Lado esquerdo do peito

"Quando um coração se fecha, faz muito mais barulho do que uma porta. (...)
Levar com a porta na cara dói muito. Dói sempre, o dia inteiro, a todas as horas e a todos os minutos. Dói tanto que os segundos se podem tornar insuportáveis e os dias facilmente se transformam em epopeias, viagens trágico-maritimas. Dói de manhã, assim que regressamos do abençoado estado de inconsciência em que o sono nos guarda, quando olhamos para o lado e perguntamos: e agora?
(...) Dói quando nos lavamos, quando comemos, quando engolimos, quando respiramos, quando falamos, quando ouvimos, quando pensamos. Dói um bocadinho menos quando os amigos nos abraçam. Mas o que mais dói é saber que alguém que ainda amamos, por medo e por sofrimento, nos fechou o coração. O som é igual ao de mil tambores em fúria: não vale a pena falar, não vale a pena escrever, não vale a pena tentar chegar ao outro lado, saltar o muro, enviar emissários, içar bandeiras, fazer cimeiras, apanhar aviões e levar o nosso coração como presente porque ele já não o quer. Quando o outro coração se fecha, deixa de ser nosso. E quando um homem fica surdo do coração, como é muito mais prático do que uma mulher, em vez de chorar e lamber as feridas, oferece-o a outra mulher. Os homens têm uma existência infinitamente mais leve; confundem desejo com amor."

Margarida Rebelo Pinto

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Tudo valeu a pena, quando reconhecem o nosso esforço.

"Os mais fortes não são aqueles que estão sempre de pé, são aqueles que se fartam de cair e levantam-se sempre. Vocês são os mais fortes."

domingo, 26 de abril de 2009

não há coicidências



Amei-te de forma desajeitada, arrebatadora e incondicional, sempre querendo e desejando o melhor para ti. O melhor, só tu mesmo poderás encontrar e hoje estou certa que não passa por mim. Não é a dor da rejeição que me massacra, é a dor de saber que nada poderá sobrar deste amor. Que a amizade não tem espaço nem voz entre duas pessoas que desconfiam uma da outra com a facilidade de um inquisidor contratado a soldo.

Cada vez mais acredito que amar é dar e tudo o que não é dado, perde-se. E que a amizade é talvez a mais bela forma de amor, porque é gratuita e intemporal, não precisa de promessas nem de carne, não se desfaz com zangas nem se desvirtua com o tempo. Mas não te posso dar o meu carinho, o meu afecto, o meu amor domesticado em amizade, se nem sequer tens a grandeza de abrir os braços para a receber. As mulheres demoram algum tempo a transformar um sentimento em pensamento, tanto mais quanto este é profundo, e no sossego da minha casa, onde só comunico com o mundo exterior o suficiente para me manter viva, guardo intacto tudo o que sinto por ti. Fechada para o mundo e para os outros, sinto-me cada vez mais só, mergulhada numa escuridão voluntária e estéril que me aplaca a vontade e os sentidos. Com a morte deste amor por ti, morre também uma parte de mim, algo cujos contornos não consigo ainda delinear mas que com o tempo perceberei, quando a alma apaziguada fechar as feridas desta minha dor derrotada e passiva perante o teu silêncio e a tua mascarada indiferença.


Mas é melhor que nunca mais se cruzem os nossos olhares, é melhor que a palavra adeus seja mesmo essa e não outra. Chegámos ao fim do caminho. A partir daqui todas as palavras serão inutéis. Nunca saberei até que ponto ages com o coração ou apenas com a cabeça. Até que ponto te entregas ou apenas jogas. Até que ponto sentes e ages, ou apenas observas. E é por nunca ter sabido quem és, que um dia te conseguirei esquecer.
Sempre disse que as diferenças iriam servir mais para nos unir do que para nos afastar. Mas agora sei que não. Ao contrário de ti, não sou nem nunca serei, espectadora da minha própria vida.


 Margarida Rebelo Pinto

sexta-feira, 10 de abril de 2009

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Rir & Chorar *

Na vida há três tipos de pessoas:

As que choram;
As que riem;
E as que não sabem, se choram ou se riem.



Eu devo fazer parte do grupo de pessoas - que não sabem se choram, ou se riem - não sei lidar com as emoções. Choro e riu ao mesmo tempo, como se o meu "eu" se dividi-se e forma-se duas pessoas diferentes no mesmo momento. Sinto que na parte esquerda do meu peito, os sentimentos encontram-se aos socos uns com os outros, a disputar o lugar de quem fica por cima. Não consigo virar a página. Não tenho despensa para guardar tantas incertezas. Não sei o que fazer com o amor.

imagem: Katarina Sokolova