quarta-feira, 28 de julho de 2010

Vou deixar-te fugindo-me *




Mais uma noite, amor. Ao recordar-te

retomo os fins do mundo, a cinza, os dias
manchados de outras lágrimas. Sabias
como eu a cor das sombras, essa arte


que nos engana agora e se reparte
por esquinas e cafés. Já não me guias
os muitos passos vãos, as fantasias
da minha falsa vida. Vou deixar-te

fugindo-me. Na chuva, sem ninguém,
apenas alguns vultos, o que vem
«e dói não sei porquê» -este deserto


onde te vejo, imagem outra vez,
até de madrugada. O que me fez
sentir o muito longe aqui tão perto?




Fernando Pinto do Amaral

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Pequenas coisas

"Vou-te fazer ver que as nuvens trazem o arco irís mais perfeito de todos"

Soraia


Ainda me lembro. E só as recordo agora, para falar de ti. Aquelas semanas que custaram tanto a passar - e que já estão enterradas juntamente com os fantasmas - bastou-me esta frase para recuperar o sorriso que se tinha afogado no meio de tanta mágoa e raiva. Soube quase tão bem, como os teus abraços. Obrigada.

sábado, 3 de julho de 2010

Quando as palavras não chegam..



Ali ninguém conhecia o outro lado do seu espelho. Ninguém sabia que ela trocava a sua cidade por outra mais cinzenta. Ninguém sabia que deixou de consumir a ilusão como cura de feridas provocadas pela ausência. Que o lado do corpo, que lhe pesava mais era o lado esquerdo. Nunca ninguém reparou que não chorava nas despedidas, pois considerava o sorriso a mais bela forma de dizer adeus. Desde muito pequena, sempre preferiu caminhar na companhia de si mesma. Anestesiada com a própria solidão, encontrava-se em histórias – que não lhe pertenciam – e perdia-se em baladas suicidas.

Infeliz, sempre procurou o brilho da sua vida nos outros. Hoje encontrou a leveza de uma liberdade que sempre desejou. É feliz assim, na sua perfeita solidão.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Just like a woman

She takes
just like a woman.
She makes love
just like a woman.
And then she aches
 just like a woman.
But she breaks
 just like a little girl.

Bob Dylan


domingo, 6 de junho de 2010

Ella





Hoy vas a descubrir que el mundo es solo para ti
Que nadie puede hacerte daño, nadie puede hacerte daño
Hoy vas a comprender que el miedo se puede romper con un solo portazo
Hoy vas a hacer reír porque tus ojos se han cansado de ser llanto, de ser llanto
Hoy vas a conseguir reírte hasta de ti y ver que lo haz logrado

Hoy vas a ser la mujer que te dé la gana de ser
Hoy te vas a querer como nadie te ha sabido querer
Hoy vas a mirar pa'lante, que pa atrás ya te dolió bastante
Una mujer valiente, una mujer sonriente
Mira como pasa

Hoy no ha sido la mujer perfecta que esperaban a rotos sin pudores
Las reglas marcadas
Hoy ha calzado tacones para hacer sonar sus pasos
Hoy sabe que su vida nunca más será un fracaso

Bebe

domingo, 30 de maio de 2010

Ouvir a música que vem do coração

O Domingo passou depressa. Quando dormimos, os ponteiros do relógio correm na direcção do futuro. Hoje não vi a luz do dia. Fechei-me – mais uma vez – na minha concha. Afoguei-me debaixo dos cobertores. E por ali fiquei horas a fio.
Não sei se foi o cansaço que me levou a dormir tanto, ou o desejo de ouvir-me.


(Hoje nada me apetece. Só ficar assim.
A ouvir a minha música. Leve e vazia de nadas.)

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O Suspiro Adiado



E cá estou eu - mais uma vez - a correr para ti. E mais uma vez para ti.
E isto sucede, sempre que tropeço em mim. Quando tropeço nos meus passos desajeitados, moldados às pedras que nos acertam em cheio na vida. A necessidade de te encontrar flutua nos meus desejos adiados pela força da existência.



Procuro-te. E é aqui que te encontro. Neste lugar, tão vazio e tão cheio de palavras cobertas de silêncio, que procuram - sempre - a voz das tuas palavras, para amolecer a dureza das quedas. Aqui encontro apenas metade de ti. A metade de ti, que é a metade mais forte em mim. Tu és o meu segredo. A minha injecção de confiança.


Para ti, tenho sempre a mesma face. Sou sempre eu, autêntica e única. Não outra. Não me escondo, porque me aceitas, tenha eu um sorriso ou a lágrima a cair ao canto do olho. Tenha eu, às costas uma bagagem com a leveza de sonhos, ou uma bagagem pesada, cheia de fantasmas e incertezas. Afinal, é esta junção de sentimentos contraditórios, que nos faz sentir o nosso sangue a correr-nos nas veias. Faz parte da vida, tal como tu fazes parte da minha. Obrigada por estares sempre comigo.

Continua a tapar-me a lua, para eu não chorar. A empurrar-me para cima, quando há algo que me tenta afogar. E claro, a sorrir comigo :)


Meu amigo,
que assim fique liberta a eterna gratidão
e toda a admiração que sinto por ti.





E esta foi mais uma - das centenas cartas - que te escrevi ao longo destes quatro anos. Tão longos e por vezes, tão cheios de nada. Eu sei, que me lês atentamente e ouves a minha voz parar uns segundos, nas pausas das vírgulas. Sei também, que me guardas. A mim, e a todas as cartas que te escrevo.
No outro dia, ligaste-me. Quando vi o teu nome no ecrã do telemóvel, o meu coração saltou do peito. Sentia-o a bater nas minhas mãos. E nunca mais me esqueço, das primeiras palavras que  atravessaram  para este lado da linha: "Precisava de te ouvir" - provavelmente não estavas bem. Mas não toquei no assunto. Tudo aquilo que me querias contar, eu estava ali para ouvir.

Nem sempre falamos a mesma língua. E estes dias, têm sido verdadeiramente complicados. Às vezes, não percebo onde vais buscar tanta paciência para me aturares.  Sempre te disse tudo, e palavras por vezes tão fortes e sem pára-quedas. No entanto, perdoas-me sempre.  A paciência, sempre foi uma virtude tua. A ausência, sempre foi um defeito meu.

Vais continuar a ser  o barbudo. O homem que sorri sempre que lhe conto uma piada, por mais seca que for. A música vai-te sempre saltar do peito. Vais-me continuar a dar a mão. Vais continuar a consertar o nosso castelo de areia. E provavelmente, vais continuar a combinar os ténnis com a t-shirt.